No ateliê de Fause Haten
Corta e recorta tecidos.
Prega, costura, passa e repassa vestimentas.
Veste-se e se despe de si. 
Assim é Fause.
Haten está envolvido com o universo têxtil desde que se entende por gente. De família libanesa, cresceu envolto em tecidos e confecção, com marca e loja próprias, por anos. Participou do calendário oficial da moda brasileira e também de Nova Iorque, quando fez barulho com seus desfiles com mulheres e homens impactantes, carregados de ousadias sofisticadas!
A vontade de estar no palco levou Fause a criar figurinos importantes e premiados para peças de teatro e musicais. Mas isso não bastou. Multitalentos que é, cantou, escreveu e atuou também como ator em monólogos que falam das angústias de ser artista.
No fazer e na construção de peças têxteis é aonde Fause se sente mais a vontade, com uma habilidade ímpar. Por isso resolveu abrir seu acervo e, a partir de peças suas e outras garimpadas por brechós do mundo todo, passa a ressignificá-las, transformando-as em esculturas, em formas de rostos ou máscaras apenas com a aplicação de alfinetes e poucos pontos, para alcançar os volumes pretendidos. 
Ao fim, o assunto não poderia deixar de ser os ”eus” que habitam cada um de nós.
O artista cria objetos, como formas de membros, para falar de identidade e requinte, ostentação, perdas e danos. Cria formas e imagens fortes, considerando a pergunta que está no âmago de cada indivíduo: quem somos e o que estamos fazendo aqui?

Renato De Cara
Fevereiro de 2020
Uma mitologia, sem mito e com magia
A criação é um dom humano cujo livre arbítrio abre uma infinidade de possibilidades.  
Os artistas, criadores por ofício, se expressam por uma inerente necessidade de liberdade. Um discurso poético que contribui para uma construção histórica que irrompe outras formas de contato. 
Eu afeto, eu sou afetado; título-poema dessa exposição, nasceu a partir de uma série de impregnações: da simbiose entre o criador e suas criações – criaturas ou entidades; da absorção porosa de um novo local; do diálogo entre linguagens e suportes; daqueles que participam, observam e são impactados. O corpo é o tema, porém a alma está na essência dessas criaturas, expurgadas como explosões cromáticas congeladas em intenso movimento contínuo. Corpo, dança, vestimenta, interrupção, liberdade, estímulo, provocação, registro, forma, cor, luz, seres, entidades. Um processo que fissura o campo da moda com um rasgo estético conceitual que se transforma em literatura e artes visuais.
A mitologia criada por Fause Haten transcende os materiais, linguagens e suportes. Uma busca por encontrar um ser dentro de outro ser, como em uma experiência de transe e incorporação, que envolve rito, baile, palavras, vestes, cores, energias. 
A fruição espaço-temporal amplia a tensão entre mito, realidade e magia, conseguindo expandir o que era “uno”, em vários outros.  Um encontro-choque que detona o “pavilhão de eus” que habita o artista, um inquieto monge que guerreia em paz consigo mesmo, criando sua própria forma de beleza. 

Daniel Rangel
curador

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