Eu Afeto, Eu sou Afetado, nasce partir de performances que eu chamo de AFETO.
Afeto do verbo afetar.
Essa performance consiste em construir esculturas no corpo de performers com a intenção de “afetar” seus corpos pelo volume, peso ou restrição de movimentos.
Essas performances se realizaram em outubro de 2023, na Sala do Coro do TCA com os bailarinos convidados do Bale do TCA.
Uma pesquisa de campo que busca provocar num corpo muito habituado a expressão, algo novo que o mova de uma forma inesperada.
A primeira parte da performance é o AFETO.
A segunda parte são as AFETAÇÕES, onde o performer experimenta esse corpo afetado, recebendo estímulos sonoros.
Nesse momento eu faço registros fotográficos e de vídeo.
Essas imagens depois passam por um processo de arte digital e ai nascem os AFETADOS.
Em homenagem aos AFETADOS eu pintei retratos de cada um deles 
e fiz esculturas com os resíduos dos materiais usados nas performances
Fause Haten – DAHNI (2024) – Série Afetados - Montagem em metacrilato - 60x40
Fause Haten
PARA DAHNI (2024)
Série Afetados
Escultura 
Tecido montado sobre madeira 
100x40
Fause Haten – PARA DAHNI (2024) – Série
Afetados - Óleo sobre tela – 50x50 


Fause Haten
FLEHSHA (2024)
Série Afetados
Foto Performance
Impressão em metacrilato
60x80
Fause Haten
PARA FLEHSHA (2024)
Série Afetados
Óleo sobre tela 
40x40 
Fause Haten
PARA FLEHSHA (2024)
Série Afetados
Escultura - fita de metaloide - montada sobre madeira
100x40
Flehsha é o Pai de todos os Pais. Flehsha é Senhor dos Ensinamentos. 
Quando nada existia no mundo, surgiu Flehsha. 
De muito longe, um ponto de luz dourado foi se aproximando. Ninguém aqui havia e, portanto, ninguém poderia vê-lo.

Mas no escuro da noite, o ponto de luz foi crescendo,
se aproximou dourado e se revelou em sua pele marrom e olhar doce. 
Flehsha era silencioso e tranquilo.
Muitas unidades de contagem de tempo se passaram e ele seguia sereno vagando sobre a terra. 
Um dia, sua serenidade foi interrompida por um sentimento. Flehsha que nunca havia sentido nada, agora sentia-se solitário. Decidiu então ter uma companhia.
Arrancou sua mão esquerda 
por onde começou a escorrer um líquido vermelho e fértil. Surgiu Ahni. 
Flehsha e Ahni passaram a habitar juntos esse planeta. Ahni era muito carinhosa,
Flehsha era compreensivo com suas energias intensas. 
Um dia Ahni lhe surpreende e dá a luz a 3 filhas: Mohni, Senhora das Folhas e da Fertilidade. Fahta, Senhora dos Gazes e da Harmonia.
Luhi, Senhora das Águas e do Cuidado. 
As 3 filhas eram muito vibrantes.
Preencheram e coloriram tudo o que se podia ver e o que não se podia. 
Flehsha se deliciava com a pureza dos gases, Usufruía da beleza e dos benefícios das folhas, Poderia ficar dias contemplando as águas. 
Mas entendia que não poderia deixar o amor e a admiração lhe destituir a função de formá-las para a vida. 
Mohni só queria brotar Fahta só queria brincar Luhi só queria dançar. 
Seu pai então entra em meditação profunda em busca de uma solução. Passa dias flutuando e refletindo. 
Depois de um tempo manda uma missão para cada filha:
Um único filho para Mohni, para testar a sua natureza de brotar. Uma nuvem de gases para Fahta, para rever a sua liberdade.
E um envolucro de vidro para Luhi, para repensar os seus limites. 
Tido como cruel por suas atitudes,
após o sucesso de suas filhas em suas missões, ele passa a ser compreendido em suas atos. 
Flehsha é o Senhor dos Ensinamentos.
Vive cuidando e zelando para que suas filhas tenham a melhor oportunidade de saborear as suas existências,
reverberando sabedoria e ensinamentos em seus legados. 
DAHNI
DAHNI
FLEHSHA
FLEHSHA
AHNI
AHNI
MOHNI
MOHNI
FAHTA
FAHTA
LUHI
LUHI
AGNAH
AGNAH
PAHU
PAHU
Fause Haten
Série Afetados (2024)
Foto Performance
Impressão em papel fineart com pigmento natural
Dispostas em caixa de acrílico 
30x20x4
Fause Haten – AHNI (2024) – Foto Performance - Montagem em metacrilato - 60x80
Ahni é a Mãe de todas as Filhas.
A Senhora do Equilíbrio da Natureza. 
Escorreu dos braços de Flehsha quando esse se sentiu só. Ahni nasceu acolhedora, fiel, sensível
e com uma grande capacidade de realização. 
Percebendo todo aquele vazio, deu à luz a 3 filhas. 
Primeiro pariu Mohni.
Numa ânsia inesperada, ela abre sua boca e por ela jorra uma cascata com todas as folhas do mundo. 
Depois pariu Fahta.
Após uma respiração profunda para sentir o
perfume das folhas, expirou pelo nariz, todos os gases do mundo. 
Por último pariu Luhi.
Emocionada com o nascimento de Fahta e Mohni, lágrimas começaram a vazar de seus olhos e por eles surgiram todas as águas do mundo. 
Ahni agora era mãe de 3 filhas e precisava cuidar delas. As 3 filhas eram muito diferentes e Ahni se viu perdida. 
Vontades, pensamentos, instintos muito diversos.
Em permanente atrito, as folhas, gases e águas juntas,
explodiram, apodreceram, esvaziaram, encheram, secaram, brotaram. Dessas combinações diversas, surgiram as terras, rios,
florestas, pedras, mares, montanhas, areias 
que coloriram e preencheram o mundo. 
Com o mundo tão exuberante, seu marido Flehsha fica encantado. Ahni então, sente que sua missão está cumprida e resolve comemorar. 
Ela começa a dançar, foi girando
e de repente se transformou em uma labareda de felicidade e fogo. 
Mas se assustou percebendo que poderia ferir suas filhas, queimando as folhas,
consumindo os gases ou evaporando as águas,
Ela então se impulsiona em direção ao céu 
e vai se transformando numa imensa bola de fogo flutuante. 
Flehsha desesperado com a perda de sua companheira,
tenta levar o mundo até ela, mas nunca conseguiu.
Segue até hoje girando em torno de Ahni sem nunca conseguir se aproximar. 
Ahni segue iluminando e aquecendo sua família e a terra.
Zelando pelo equilíbrio das 3 filhas e da sua convivência pacífica e equilibrada. 
Ahni é a Senhora do Equilíbrio da Natureza.
Todas as vezes que as 3 filhas se desequilibram ela impõe sua presença e seu calor para que se lembrem que nenhuma viverá bem sem a outra. E que a morte de uma, será a morte de todas. 
Fause Haten – MOHNI (2024) – Série Afetados – Foto Performance - Montagem em metacrilato 60x40
Fause Haten – PARA MOHNI (2024)– Série Afetados - Escultura – Elásticos, cristais, alfinetes e pintura a óleo 50X40X40
Fause Haten – FAHTA (2024) – Série Afetados – Foto Performance - Montagem em metacrilato - 60x40
Fause Haten – LUHI  (2024) – Série Afetados – Foto Performance - Montagem em metacrilato - 60x40
Fause Haten – PARA  MOHNI  (2024) – Série Afetados – Óleo sobre tela - 40x40 
Fause Haten – PARA LUHI (2024) – Série Afetados – Óleo sobre tela - 50x50
Fause Haten – PARA FAHTA (2024) – Série Afetadåos – Óleo sobre tela – 40x40 
Fause Haten – AGNAH – Série Afetados – Foto Performance - Montagem em metacrilato -  60x40
Fause Haten
ARA AGNAH (2024)
Série Afetados
Escultura 
Tecido com base em madeira
90x90 
Fause Haten
PAHU (2024)
Série Afetados
Óleo sobre tela
50x50 
Fause Haten – PAHU  (2024)– Série Afetados – Foto Performance - Montagem em metacrilato - 60x40
Fause Haten 
PAHU (2024) 
Série Afetados 
Óleo sobre tela 
50x50 
Uma mitologia, sem mito e com magia
A criação é um dom humano cujo livre arbítrio abre uma infinidade de possibilidades.  
Os artistas, criadores por ofício, se expressam por uma inerente necessidade de liberdade. Um discurso poético que contribui para uma construção histórica que irrompe outras formas de contato. 
Eu afeto, eu sou afetado; título-poema dessa exposição, nasceu a partir de uma série de impregnações: da simbiose entre o criador e suas criações – criaturas ou entidades; da absorção porosa de um novo local; do diálogo entre linguagens e suportes; daqueles que participam, observam e são impactados. O corpo é o tema, porém a alma está na essência dessas criaturas, expurgadas como explosões cromáticas congeladas em intenso movimento contínuo. Corpo, dança, vestimenta, interrupção, liberdade, estímulo, provocação, registro, forma, cor, luz, seres, entidades. Um processo que fissura o campo da moda com um rasgo estético conceitual que se transforma em literatura e artes visuais.
A mitologia criada por Fause Haten transcende os materiais, linguagens e suportes. Uma busca por encontrar um ser dentro de outro ser, como em uma experiência de transe e incorporação, que envolve rito, baile, palavras, vestes, cores, energias. 
A fruição espaço-temporal amplia a tensão entre mito, realidade e magia, conseguindo expandir o que era “uno”, em vários outros.  Um encontro-choque que detona o “pavilhão de eus” que habita o artista, um inquieto monge que guerreia em paz consigo mesmo, criando sua própria forma de beleza.

Daniel Rangel
curador

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